Transtorno Compulsivo Alimentar: qual é o limite entre a fome e a compulsão?

Alimentar 1
Share on facebook
Share on twitter
Share on pinterest

As síndromes comportamentais relacionadas à alimentação têm sido campo de estudos incansáveis, resultando em diversas pesquisas sobre os pacientes e suas condições, bem como uma melhor delimitação dos diferentes distúrbios.

 

Pesquisas apontam que até 5% da população mundial sofre com algum tipo de distúrbio alimentar. Mas os índices podem ser ainda maiores, pois a maioria dos pacientes não buscam ajuda profissional.

 

O que é a compulsão alimentar?

A condição, denominada transtorno de compulsão alimentar periódica (TCAP), está relacionada com distúrbios químicos cerebrais, em que as percepções de fome e saciedade são alteradas.

Ela ainda possui diversas denominações no ramo médico, como “comer compulsivo”, “crises de voracidade alimentar” ou “Binge Eating”.

 

Para se caracterizar a compulsão alimentar, as refeições exageradas devem ser acompanhadas de arrependimento ou culpa. Mas a perda de controle diante da comida é o principal aspecto a ser observado.

 

Ainda que possam ocorrer com frequências variadas, em geral, estipula-se, ao menos, 3 episódios semanais de crise compulsiva (refeições exageradas), de acordo com o DSM IV – Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais, que abrange transtornos alimentares sem outra especificação, e no CID, como transtorno de alimentação não especificado.

 

O paciente compulsivo pode ser acometido, com frequência, pelo sentimento de impotência perante os alimentos, além de desenvolver pensamentos obsessivos com a comida. Nesses casos, as refeições ficam cada vez menos espaçadas e toda a concentração do paciente se volta à ingestão de alimentos.

 

Os momentos de alimentação são seguidos de uma incapacidade de interromper o ato, mesmo quando a saciedade é alcançada. Assim, o paciente é acometido por arrependimento, culpa e vergonha por não manter o controle.

 

Geralmente os episódios ocorrem sem o conhecimento da família ou amigos devido ao sentimento de constrangimento perante à ação.

Apesar de haver uma aproximação com o quadro de bulimia nervosa, na compulsão alimentar não há presença de atos compensatórios (como expurgar o alimento após ingeri-lo) e, por isso, a tendência é acarretar no ganho de peso.

 

Principais causas da Compulsão Alimentar

Há uma série de fatores que se associam, compondo possíveis origens do transtorno. Mas determinar o agente causador ainda é bastante complexo.

 

Fatores genéticos

Não há conhecimento de um gene que desencadeia o comer compulsivo ou os demais transtornos alimentares. A herança genética, conduto, é um fator bastante presente na propensão aos diversos distúrbios.

 

Isso porque o formato corporal, os atributos físicos e a dificuldade em perder peso podem ser incidências que encaminham o paciente à baixa autoestima e distorções de imagem.

 

Fatores neuroquímicos

Estudos recentes apontam alterações nas atividades neurais nas regiões do córtex cingulado, frontal, temporal e parietal. Essas atividades cerebrais são relacionadas com o controle de comportamentos naturais, como o alimentar e o sexual.

 

As pesquisas apontam sinais de que os sistemas de recompensa (que dão sensação de prazer) estão relacionados diretamente com os comportamentos compulsivos. Portanto, pessoas com vícios ou compulsões têm sua capacidade de escolha e autocontrole reduzidas.

 

Pesquisas realizadas também apontam que os valores metabólicos se mostram alterados nos pacientes que apresentam compulsão alimentar.

 

Desse modo, os hormônios leptina, grelina e colecistocinina, relacionados às funções de saciedade, regulação de taxas metabólicas e a percepção de ingestão alimentar, apresentam alterações significativas.

Fatores emocionais

Os alimentos e o ato de comer estão fortemente relacionados com as emoções, por isso, há uma alta incidência de alterações alimentares relacionadas aos estados emocionais.

 

Assim como há pessoas que perdem a fome em momentos de estresse a ansiedade, outras recorrem aos alimentos para descontar emoções e frustrações.

 

A baixa autoestima, a auto cobrança excessiva, a vontade de emagrecer ou se enquadrar em padrões estéticos se tornam comportamentos de risco numa sociedade que tende a exercer grande pressão estética.

 

Dietas rígidas

Pesquisas apontam que até 95% das pessoas que já realizam algum tipo de dieta restritiva (aquelas em que se reduz drasticamente a ingestão de pelo menos um nutriente) voltam a engordar.

 

Esses fatores – dificuldade em manter o cardápio e o posterior aumento de peso – incidem em um desequilíbrio emocional, sentimento de frustração e alterações neuroquímicas, que podem alterar a relação saudável com a comida.

 

Quais são os sintomas?

Em geral, relata-se a perda de controle diante das refeições. O paciente se sente incapaz de parar de comer mesmo quando já está saciado.

 

O sentimento de angústia e arrependimento segue imediatamente após uma crise compulsiva, fazendo com que a pessoa entre num ciclo de culpa e autodepreciação.

 

Assim, em síntese, pode-se ter um quadro associado de, pelo menos, 3 sintomas listados abaixo:

 

Entre os sintomas clínicos:

  • Perda de controle nas refeições;
  • Comer rápido e engolir pedaços inteiros de alimento;
  • Compulsões ocorrentes pelo menos 3 vezes por semana;
  • Ingerir quantidades demasiadamente exageradas de alimento.

 

Entre os sintomas emocionais:

  • Arrependimento, culpa, vergonha e constrangimento após a crise;
  • Baixa autoestima e distorção de imagem;
  • Depressão, ansiedade, e distúrbios psicológicos;
  • Inibição e fuga de eventos sociais que o expõe a comida.

 

Doenças associadas

A compulsão alimentar pode agravar ou desencadear quadros depressivos, ansiosos ou outras compulsões, além de propiciar outros transtornos alimentares, sobretudo a bulimia nervosa.

 

No que se refere às condições biológicas e fisiológicas, há prevalência das seguintes doenças e condições:

  • Sobrepeso ou obesidade;
  • Hipertensão;
  • Problemas nos rins causados pelo excesso de cálcio;
  • Apneia do sono;
  • Alterações metabólicas;
  • Diabetes tipo 2;
  • Colesterol alto;
  • Problemas cardíacos.

As condições acima são resultado, sobretudo, do excesso de nutriente ingeridos.

 

Sódio, gorduras, carboidratos e cálcio são alguns dos componentes que podem sobrecarregar o organismo e resultar em patologias ou distúrbios de metabolização e, em geral, são os mais consumidos nas crises compulsivas.

 

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico compreende uma etapa difícil da vida do paciente. Em geral, há resistência em admitir o problema, que é permeado pela culpa e vergonha.

 

Muitas vezes, há ainda a desinformação e a falta de percepção. Ou seja, o paciente não compreende que há um distúrbio alimentar e persiste na ideia de que necessita de uma dieta.

 

Profissionais de nutrição, psicólogos, psiquiatras e endocrinologistas são aptos a diagnosticar os casos de compulsão.

 

Tratamento Psicoterápico

Mais do que tratar pontualmente os episódios compulsivos alimentares, é importante verificar os agentes causadores.

 

Possíveis traumas relacionados, insatisfação corporal, insegurança e baixa autoestima, além de outros transtornos psicológicos, como depressão e ansiedade podem ser desencadear crises.

 

Estudos apontam que a psicoterapia apresenta bons resultados através da identificação de um tema do transtorno. Ou seja, com as sessões de psicoterapia, o profissional é capaz de traçar um ponto central de conflito.

 

Terapia cognitivo-comportamental

A terapia cognitivo-comportamental é umas das intervenções mais utilizadas no Transtorno Compulsivo Alimentar. Estudos sugerem que os resultados são bastante efetivos e, por isso, a indicação da abordagem para os transtornos alimentares tem sido crescente.

 

Também há técnicas comportamentais envolvidas na abordagem a fim de melhorar ou modificar os hábitos alimentares do paciente.

 

Nesse aspecto, o paciente é incentivado a observar seus padrões na hora de comer, registrar o cardápio, apontar quais alimentos ou ocasiões despertam mais facilmente as compulsões.

 

A auto-observação implica em uma melhor consciência sobre si mesmo e favorece as respostas à terapia, já que cada pessoa tem motivações compulsivas diferentes.

 

Vemos a seguir algumas dicas para, na prática aplicar essa auto-observação.

 

Dicas práticas para um comportamento alimentar saudável

A maioria das vezes o consumo de alimentos é feito de forma inconsciente. Assim, o primeiro passo para quebrar este comportamento alimentar consiste em perceber o seu funcionamento através de uma autoanálise.

 

Por exemplo: de quantas em quantas horas você come, quando está em uma situação de estresse ou cansaço? Que sinais físicos detecta? Em que momentos do dia sente mais vontade (impulso) do que necessidade de comer? Qual o sentimento que associa ao aumento da quantidade ou tipo de comida que ingere?

 

Além disso, concentre-se nas refeições, evitando fazer outra atividade simultaneamente. Mantenha a atenção plena a este momento de ingestão do alimento.

 

Faça uma lista de atividades que lhe proporcione prazer, que sejam incompatíveis com comer e que possam constituir uma estratégia alternativa para lidar com emoções menos positivas (por exemplo: passear com o seu cachorro, tomar um banho relaxante, fazer uma caminhada ou corrida, ir ao cinema, dançar, visitar um amigo ou familiar).

 

Não atribua à comida um valor simbólico, usando-a como recompensa ou castigo, aconchego ou equivalente ao amor.

 

Perceba as suas motivações ao comer, distinguindo a fome física da fome emocional. As nossas necessidades emocionais são satisfeitas com sentimentos não com alimentos.

 

Por exemplo: no lugar de comer algo que lhe dá um prazer momentâneo, que tal ligar para um amigo e conversar sobre o que está sentindo?

 

Pratique atividade física, pois ela tem um papel fundamental em diversos níveis (físico, químico e, consequentemente, emocional).

 

Com este artigo pretendemos trazer alguns aspectos do comportamento alimentar e dar visibilidade sobre estratégias práticas que podem fazer diferença, em termos de bem-estar.

 

Salientamos que qualquer alteração no comportamento alimentar (distúrbios como a anorexia, bulimia e compulsão alimentar), são muito sérias e exigem medidas imediatas. Por isso, não hesite em procurar um profissional de saúde.

 


Psicóloga Carla Araujo
CRP – 05/58453
www.psicologacarlaaraujo.com.br


 

WhatsApp chat